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Carreira e emprego - Dicas para seu sucesso profissional
Escrito por Milena Queiroz Gonçalves Santos   
Qua, 23 de Setembro de 2009 20:18
 Novas exigências do mercado de trabalho
 
Texto extraído e adaptado de: OLIVEIRA, Silvio Luiz. Sociologia das organizações: uma análise do homem e das empresas no ambiente competitivo. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. (p. 64 - 74)
 
Certos conhecimentos não servem mais para as empresas, porque determinadas áreas de trabalho estão desaparecendo. A escola necessita fazer com que o aluno mergulhe na abundância de dados disponíveis, que consiga dar soluções aos problemas apresentados. Os alunos não são orientados a dar soluções aos problemas que podem aparecer nas empresas, e na sua própria vida particular, de forma crítica, ou seja, a transformar a informação para solucionar o problema e com isso adquirir o conhecimento e a experiência.
 
A BASE DO FUTURO
 
As empresas estão valorizando o funcionário criativo, flexível, capaz de se adaptar rapidamente às mudanças, um problema para as escolas e universidades em prepararem o aluno para o trabalho.
Reproduzir mecanicamente as informações, isso o computador o faz melhor e mais rápido.
 
A necessidade de dominar sua área e muito mais
Os estudiosos da Revolução Tecnológica afirmam que somente próximo de 2010 é que teremos uma nítida idéia das profissões que irão morrer e as que irão sobreviver. As empresas tornam-se surpreendentemente interligadas, ganham vida e passam a concorrer socialmente com os trabalhos e com uma grande vantagem: são gerentes, não possuem direitos trabalhistas, não recebem salários, estão disponíveis a qualquer momento para trabalhar.
As novas máquinas possibilitam mudanças nos modos de produção, e pelo que parece não levaram em consideração no seu trabalho o capital.
Os novos meios de produção do sistema capitalista exigem trabalhadores mais alertas com capacidade de transferir conhecimentos de uma área para outra.
Trata-se de tendência para o futuro. Os professores terão que dominar um grande grau de conhecimento, dominar mais de um idioma por causa da globalização. É a era da polivalência no Brasil. Especificamente, não significa que, de imediato, as pessoas não-qualificadas ficarão sem ter o que fazer, mas, também, o processo está sento muito rápido e irá apanhá-las na contramão.
Ainda existe espaço para trabalhadores manuais, mas não por um período de tempo muito longo.
Está em curso uma rápida transformação e determinadas profissões para as quais antes não se exigia qualquer tipo de formação escolar, como é o caso dos arrumadores de hotel, auxiliares de limpeza, ajudantes de construção, eletricistas, motoristas de ônibus, cobradores, frentistas de postos de gasolina e tantos outros profissionais estão exigindo algum grau de escolaridade.
Algumas áreas profissionais são mais pressionadas do que outras, mas quase todas estão requerendo no mínimo formação de ensino fundamental e, em muitos casos, já são disputadas por quem possui o ensino médio.
Os especialistas afirmam que, no mercado futuro, as profissões que independem de contato com as outras pessoas tenderão a desaparecer gradativamente e a crescer aquelas que envolvem interação entre profissionais e clientes.
No setor comercial deverão aumentar os que trabalham no comércio do setor eletrônico - promoção e realização de vendas, serviços de entregas e assistência aos clientes.
Nos serviços crescerá a demanda pelas profissões ligadas à saúde, educação, turismo, hotelaria, bares e restaurantes, seguros, administração, importação e exportação, atividades financeiras e econômicas e instituições não-bancárias.
Diferentemente das épocas anteriores, as empresas, motivadas pela globalização, estão buscando nos jovens outros valores sociais, psicológicos e culturais tais como:
Atitudes.  A questão da postura tem sido um ponto crucial entre aqueles que buscam uma vaga no mercado de trabalho e o comportamento esperado por parte da empresa. Geralmente os jovens recém-formados não sabem se comportar, por exemplo, numa entrevista de emprego. Falham na hora de escolher a roupa, erram na maneira desleixada como se sentam, fumam sem autorização, confundem-se nas coisas que dizem. Muitos comportam-se de maneira arrogante, esquecendo-se das convenções sociais. Outros tentam ganhar simpatia com piadinhas ou gracejos, numa informalidade imprópria e inadequada ao momento.
Nessas conversas, muitas vezes, a empresa está querendo descobrir se o jovem é capaz de, entre outras coisas, representá-la junto aos seus consumidores e acionistas. Se é capaz de dar uma entrevista à imprensa.
Certos vícios adquiridos na Faculdade tais como apatia, a falta de respeito para com o mestre, o individualismo, a falta de curiosidade em conhecer mais coisas além daquilo que o professor desenvolve em sala de aula, comportamentos inadequados, a falta de interesse, a postura, a gíria são valores negativos que devem ser esquecidos no dia da colação de grau porque nem ela é mais respeitada. Com tudo isso, esses jovens não possuem qualquer chance de serem aproveitados nas empresas, e são fatores de eliminação logo no processo de recrutamento e seleção. A empresa é uma organização conservadora.
Inglês e Espanhol. Muito necessário, mas não imprescindíveis.
Informática. Muito necessária, senão imprescindível. As empresas estão buscando jovens profissionais que tenham familiaridade com processadores de texto comuns como Word ou planilhas como o Excel. No caso da Internet, é necessário saber trocar mensagens ou buscar sites e saber o que fazer com a informação. Separar as informações boas das informações ruins.
Cultura Geral. Há necessidade de ler os clássicos da literatura, revistas especializadas, jornais diariamente. Pesquisas feitas por algumas consultorias como é o caso da Procter & Gamble, têm avaliado que a maioria dos jovens buscam poucas informações sobre o que ocorre no exterior, na política nacional e internacional, na Economia, no mundo dos negócios, no ambiente de trabalho e têm muitas dificuldade de redigir algum texto, com idéias concatenadas e dentro de um português inteligível.
Trabalho em equipe. As empresas atualmente têm buscado jovens com capacidade de trabalhar em equipe e com bastante criatividade, dando um fim ao individualismo.
Empatia. Capacidade de se envolver totalmente com a empresa.
Curiosidade intelectual. A gerência dos altos cargos nas empresas tem prestigiado uma coisa muito rara nos jovens profissionais. Ou seja, aquelas pessoas que aprendem a aprender, interessadas em descobrir coisas novas e antigas que possam aumentar o seu repertório de conhecimentos e, com isso, aprimorar a sua intelectualidade.
Planejamento. Uma capacidade raramente encontrada naqueles que buscam o mercado de trabalho. As empresas têm prestigiado aqueles que se preocupam em alcançar objetivos a médio e longo prazos, em saber o que precisam saber em tempo de futuro e quais as novas habilidades que pretende desenvolver.
Além do diploma. Observam-se novos tipos de comportamento das empresas com relação ao recrutamento e seleção dos novos talentos para comporem os seus quadros de funcionários. O diploma, mesmo o das melhores faculdades, deixou de ser a coisa mais importante, para muitas empresas. Há 10 anos, o lado técnico era o que mais importava. Nessa época, ter um diploma de administração da FGV era garantia suficiente de que o estudante seria perfeito para a empresa. Da mesma forma, estavam tranqüilos os engenheiros formados pelo ITA ou economistas recém-formados pela USP, pela PUC e pelo Mackenzie. Nos dias de hoje, não é incomum encontrar profissionais recém-formados e também com experiência, desempregados, embora formados por essas instituições.
A maioria dos alunos, por mais inteligentes que seja, ainda não percebeu, talvez por imaturidade, afirma a professora Maria Irene Stocco Betiol, professora de Psicologia da FGV de São Paulo, que as empresas estão buscando no novo profissional, além do diploma, habilidades como dominar pelo menos outra língua, com garra, determinação, vontade ilimitada de aprender e de crescer. Além desses fatores, vê Márcio Cypriano, o novo presidente do Bradesco, que para a empresa é importante saber que tipo de experiência possui o recém-formado, o grau de sua exposição ao mundo, a sua cultura internacional e o conhecimento de outros países, a história da sua vida, como enfrentou as adversidades. É nesse ponto que os alunos das faculdades menos reverenciadas vêm abrindo espaços que antes estavam fechados para eles, afirma Marli Manfrini, coordenadora dos programas de trainee e MBA do Citibank. Esses estudantes têm de se esmerar para compensar o que o nome da escola não lhe trouxe de benefícios. De classes sociais geralmente menos favorecidas, muitos têm força de vontade oceânica. Saem da cama de madrugada, trabalham o dia inteiro, à noite vão para a faculdade e estudam durante o final de semana. Sem caixa para fazer intercâmbios culturais e se aprimorar no exterior, fazem curso de inglês e espanhol na hora do almoço. Sem computador em casa, escarafuncham o micro da empresa para entender os meandros dos programas. Como sabem que uma faculdade de primeira faz falta no currículo, esforçam-se mais para provar que valem a pena. São batalhadores de nascença, curiosos por necessidade, criativos pela obrigação de compensar a ausência de um grande nome no diploma de formatura.
Pela análise sociológica que envolve esses novos fenômenos sociais, as empresas perceberam que é exatamente isso que está faltando nos alunos bem nascidos das melhores universidades que chegam de salto alto para disputar um jogo que é bastante duro. E que muitas vezes acaba em decepção.
Mas na atual realidade acadêmica, numa sala de aula com 50 alunos, 10 se empenham, 15 não estão nem aí e os 35 restantes são massa de manobra, sem expressão alguma. E realmente não é culpa do professor. Pode-se fazer o que quiser na universidade. Zerar o contrato do professor, o que é o mais comum e os gerentes das instituições de ensino não perceberam que com a troca constante do professor elas não conseguem formar um patrimônio cultural, prestigiar os professores escritores, coisa elementar nos Estados Unidos, na Europa e, principalmente, no Japão. A Universidade deve investir em seus professores com bolsas para cursos, seminários, congressos e projetar aqueles que são talentosos no meio acadêmico. É como um time de futebol que atrai público em função das suas estrelas, isto porque os professores são os únicos que trazem nome para a instituição e, conseqüentemente, alunos e que servem de modelo para os alunos, tanto na vida acadêmica como na profissional. Entretanto, o professor faz parte de uma categoria profissional pouco prestigiada e desunida. É muito importante para o aluno ter em sala de aula um professor amigo, com forte conhecimento da sua área e até mesmo famoso, isto porque muitos estão carentes de referenciais, em casa, na própria escola, com os amigos, com os meios de comunicação e com o governo, e vários estão até envolvidos com drogas e com o alcoolismo. A sua única chance é a sala de aula para poder enfrentar a atual conjuntura social e o mercado de trabalho.
As empresas estão tendo muita dificuldade de encontrar jovens com qualidade, até mesmo o Citibank, a Nestlé e a Rhodia, procuradíssimas pelos jovens mais promissores.
 
Estudo de Caso - Seleção de trainees
Empresas como Citibank, BankBoston, Nestlé, Rhodia são empresas com larga experiência na seleção de trainees ou estagiários entre a nata dos estudantes, gente formada em universidades de primeiríssima linha. Antes, era certo que as empresas achariam lá o que queriam. Entretanto, hoje em dia, às vezes, nem em escolas como a USP ou a FGV as grandes empresas têm garantia de que encontrarão todos os jovens com as qualidades exigidas. Com isso, muitas companhias abriram mão de só ter gente com diploma das melhores escolas brasileiras de Administração, algo impensável no passado. Hoje, estão aceitando recrutar gente formada em faculdades menos reverenciadas.
A nova geração tem graves problemas de formação, postura e envolvimento com o trabalho, além da falta do nó cultural, afirma Asnis, diretora adjunta de treinamento, seleção e desenvolvimento do BankBoston.
O nível está abaixo da crítica. Uma empresa que solicitou para não ser identificada recebeu, no mês de setembro de 1998, cerca de 2500 candidatos em seu processo de seleção. Na primeira fase, aplicou testes de inglês e de conhecimentos gerais. Eram 100 questões bem mais fáceis que as do vestibular - a duas semanas da eleição presidencial, por exemplo, perguntava-se quando seria a próxima eleição para presidente. Poucos sabiam. Os presidenciáveis? Mal lembravam o nome de dois. Os alunos deveriam acertar pelo menos 80 das 100 perguntas. Pois 90% não atingiram essa marca. A empresa, então, para não zerar o número de candidatos, baixou a nota de corte para 65. Hoje, cerca de 80% dos rapazes e moças, ou seja 2000 pessoas, continuam tendo as “notas de corte” aí. É ainda um número muito alto, afirma o gerente de departamento. Além disso, muitos recém-formados garantem que sabem inglês, mas, na hora do vamos ver, descobre-se que não sabem.
No Citibank esse fenômeno chegou a causar constrangimento, diz Marli Manfrini. O banco tinha 15 vagas para 3000 candidatos numa recente ação de recrutamento. Apesar desse “mundaréu” de gente, ficou difícil preencher os lugares disponíveis. E não é que o Citibank estivesse com grandes ambições, querendo selecionar 200 ou 300 jovens brilhantes para a disputa final. Ao término do processo de seleção, deveriam sobrar 45 candidatos, ou três para uma vaga - e a empresa já se daria por muito satisfeita. Por falta de gente qualificada, porém, apenas dois candidatos acabaram disputando entre si: o que deveria ser o terceiro, não atingiu a pontuação mínima necessária.
A conta final é francamente trágica, afirma a coordenadora: sobraram 30 nomes dos 3000 ou 1 a cada 100. Marli comentou o seu drama com um dos diretores do banco e ele não acreditou; achou que era impossível não encontrar 45 no meio de 3000. Marli então o convidou a assistir a uma dinâmica de grupo, na qual se analisam itens como iniciativa, capacidade de análise e poder de comunicação. Na dinâmica, os candidatos discutem entre si, por exemplo, se o turismo é importante para a economia ou se deveria haver uma cidade ecológica. Simulam também casos reais na vida das empresas e propõem soluções. O diretor acompanhou a dinâmica de grupo e percebeu que a maioria não tinha opinião formada sobre temas banais. Estavam a anos-luz do que se pretendia de um futuro gerente.
Desculpe, Marli, “agora eu entendi”. Foi tudo o que ele conseguiu dizer.
É de se notar que esses não são casos isolados, nem um problema crucial vivido por meia dúzia de empresas exigentes demais. O fenômeno é geral, para a tristeza de todos. A reclamação é geral e constante por parte das empresas. Há pouco tempo a Procter & Gamble procurava 78 trainees e 44 estagiários. Faltaram 16 no primeiro time e 14 no segundo. A headhunter Sofia Esteve, diretora da Companhia de Talentos, empresa paulistana especializada em recrutamento de estagiários e trainees, é uma espécie de termômetro do que ocorre com os jovens. Por ano, ela analisa o currículo e as habilidades de 3000 a 5000 recém-formados para empresas como Basf, Credicard, Rhodia e Gessy. Os candidatos vêm de praticamente todas as áreas das faculdades paulistanas, excelentes, médias ou fracas. “De 5000 estudantes sobram menos de 10% com os talentos exigidos”, diz Sofia.
Como um processo de seleção é uma coisa tensa e estafante, tempos atrás, Sofia, para quebrar o gelo de uma reunião inicial, resolveu presentear 4000 recém-formados com trufas. Deixou-as no assento das cadeiras da sala, acompanhadas de um bilhete simpático de boas-vindas. A maioria não entendeu. Alguns jogaram-nas para o canto do assento, uns chegaram a sentar em cima. “Eles não souberam interpretar o significado do meu gesto”, afirma Sofia. A explicação para isso está numa mistura de apatia, com o fato de não saber lidar com ambientes tensos, nos quais se deve agir sob pressão. Ressalte-se que muitas dessas pessoas passaram pela dura prova do vestibular. São portanto os mais preparados.
É uma questão de relevância social que interessa a todos. Aos pais que investem pesado na educação dos seus filhos, em média cerca de US$ 25000 a 30000 dólares na educação superior. Um investimento, muitas vezes não mais recuperado. Aos filhos que precisam construir o seu futuro. As escolas e faculdades que têm por obrigação formar bons profissionais. As empresas que precisam de profissionais competentes para tocar os negócios e superar a concorrência e o país que precisa de gente para torná-lo mais competitivo no cenário global.
É óbvio ressaltar que há estudantes muito bons em quase todas as escolas, principalmente nas de primeira linha. Pessoas que têm de tudo o que se espera deles para brilhar. E até mais. É evidente também que as empresas não se tornaram um deserto de jovens talentosos.
Existem jovens que na vida acadêmica foram medíocres e que se revelaram grandes profissionais inventivos e criativos. Mas estão se tornando raridade.