Os Maias - Personagens PDF Imprimir E-mail
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Ensino Médio - Português
Escrito por Milena Queiroz Gonçalves Santos   
Qui, 06 de Novembro de 2008 22:06
Personagens
 
Caetano da Maia é o pai de Afonso. Miguelista convicto e antijacobino ferrenho, dominado pelos valores tradicionais e conservadores, não perdoa ao filho as aventuras contestatárias da mocidade e expulsa-o de casa, desterrando-o para Santa Olávia. Esperava que o jovem ganhasse juízo, o que aconteceu e Afonso, depois de perdoado, regressa a Lisboa e parte para Inglaterra, abandonando os seus correligionários de lides políticas à intervenção militante e activa, enquanto ele vai assistindo às corridas de Epson.
Afonso da Maia é filho de Caetano, conservador, na sua juventude defendeu valores opostos aos de seu pai, convicções essas inconsistentes e que revelam um grande egoísmo. Ávido na leitura, prefere Tácito e Rabelais, tendo já apreciado Rousseau, Volney, Helvetius e a Enciclopédia. Casa com Maria Eduarda Runa e, durante as lutas liberais, vê o seu domicílio invadido pelos miguelistas, assim, sentindo-se ultrajado exila-se em Inglaterra com a mulher e o filho, Pedro, tomando contacto com a sociedade e culturas britânicas. A sua vida em Inglaterra fica marcada pelo inconformismo da mulher que, amante do sol, estranha o tempo, definhando e se entrega à religião beata e incondicionalmente, o que faz Afonso regressar. Contra o fanatismo e a ignorância da mulher nada consegue fazer. Após a morte da mulher e do filho regressa a Santa Olávia e aí tentará dar uma educação diferente ao neto que lhe foi entregue pelo filho, do que a educação que permitiu que a mulher ministrasse ao filho. Representante do liberalismo, simboliza a integridade moral e a rectidão de carácter. O seu sentido de moralidade nada tem a ver com o medo da divindade, mas com o respeito pelos homens. É rígido, puro, austero, puritano, sereno e risonho. Ama o progresso fruto de um esforço sério; é generoso para com os amigos e os necessitados, o que o faz também amar a natureza e o que é pobre e fraco. Orna com requinte os seus palácios. Crítico em relação à forma de estar na vida de Carlos e até de Ega, contesta a sua inactividade e o seu diletantismo, incitando-os à acção. Contudo, não existe por parte de Afonso, patriota na forma e na essência, qualquer iniciativa para curar os males do país, sendo também ele um pouco diletante. Como ele próprio reconhece, não é “um varão esforçado das idades heróicas” mas somente “um antepassado bonacheirão que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu whist ao canto do fogão”. Não é mais do que a representação de um eco e um reflexo do passado glorioso, incarnado apenas os valores de outrora; revela-se incapaz de se adaptar às mudanças que se avizinham. Representa o português íntegro, associado a um passado nacional heróico, mas cuja vitalidade se esgotou nesse mesmo tempo. Simboliza a incapacidade de regeneração do país, que vive na ilusão desse tempo áureo, alimentando-se dessa imagem perdida. Irá desiludir-se com a corrente liberal e ansiar por uma aristocracia Tory para repor a ordem, o progresso e a moral, moral essa que lhe é tão querida lhe há-de custar a vida ao saber do incesto dos netos. Morre de apoplexia, no Ramalhete, casa tão funesta aos Maias, envolto em tristeza por saber do incesto dos netos. É o personagem mais simpático e aquele que Eça mais valorizou, pelos que os seus defeitos são registados com indulgente simpatia, surgindo em contraste com algumas qualidades dos mais novos; é ainda um modelo de autodomínio, e tal como o neto individualista. Fisicamente é maciço, não muito alto, de ombros quadrados e fortes, de cara larga, nariz aquilino e pele corada, cabelo branco muito curto e barba comprida também branca.
Maria Eduarda Runa, uma verdadeira lisboeta, era pequenina e trigueira, pálida, magra e melancólica. Extremamente devota, era uma mulher triste. Influenciou a educação deformada do filho.
Pedro da Maia vai ser objecto de uma caracterização naturalista. Herdou da mãe o seu temperamento nervoso, as suas crises de melancolia, os seus sentimentos exagerados e a sua instabilidade emocional. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, animais, flores e livros. Educado pelo padre Vasques, a quem tomara birra devido ao ensino tradicional e retrógrado deste, nunca foi capaz de lhe desobedecer. Sente um amor quase doentio pela mãe, pelo que quando esta morre mergulha num estado próximo da loucura, mas, quando reage adopta uma vida devassa e vulgar, a qual abandona pouco depois, regressando à sua vida soturna e a ler livros religiosos. Deixou-se encadear por um amor à primeira vista que o conduziu a um casamento, de estilo romântico, com Maria Monforte. Este enlace precipitado levá-lo-ia mais tarde ao suicídio – após a fuga da mulher – por carecer de sólidos princípios morais (a religião que a mãe lhe transmitiu era feita de sentimentalismos vagos) e de força de vontade que o deveriam levar à aceitação da realidade e à superação daquele contratempo. Fisicamente é pequeno, de rosto oval, tem os bonitos olhos dos Maias, mas é murcho, amarelo e tem grandes olheiras, tendo um corpo frágil capaz de reflectir a fragilidade da alma, extremamente sensível e melancólica. Aproxima-se do físico dos Runas, contrapondo-se ao físico dos Maias. É o protótipo do herói romântico, é ainda uma personagem-tipo.
Maria Monforte é filha de Manuel Monforte, e é conhecida em Lisboa por “a negreira”, alcunha ligada à forma como o seu pai enriqueceu, transportando escravos. Deslumbrará Pedro com a sua beleza (alta, cabelos loiros, de um oiro fulvo, testa curta e clássica, olhos azuis e carnação de mármore, comparável às deusas) e contra a vontade de Afonso casar-se-á com ele. Viaja com Pedro pela Itália e pela França, de regresso a Portugal, o casal vai viver para Arroios, onde iniciam uma intensa vida social. Salienta-se o seu gosto pelo luxo e a sua capacidade de se fazer admirar: os amigos de Pedro idolatravam-na e Alencar sentia por ela uma paixão platónica. A instabilidade instala-se quando Pedro recolhe, em sua casa, Tancredo a quem ferira involuntariamente num acidente de caça. Mulher volúvel e insatisfeita, abandona Pedro fugindo com Tancredo e levando consigo a primeira filha do casal, Maria Eduarda. Radicam-se em Viena e Manuel Monforte vai suportando a vida caprichosa de ambos; partem para o Mónaco onde Tancredo morre num duelo e, Manuel Monforte, já totalmente arruinado, morre também. Sem meios de subsistência parte para Londres e mais tarde para Paris, deixando a filha num convento em Tours e indo viajar pela Alemanha, Terra Santa e Oriente, até se fixar definitivamente em Paris onde abrirá uma casa de jogo e posteriormente uma segunda, na qual Maria Eduarda conhecerá o seu primeiro amante, um irlandês, Mac Green, do qual terá Rosa. Após a guerra franco-prussiano em que Mac Green morre, muda-se para Londres com a filha e a neta. Antes de morrer confia a uma velho amigo, Guimarães, o cofre com o documentos que comprovam a verdadeira identidade de Maria Eduarda, a quem nunca confessara a verdade sobre a sua origem. É descrita em quatro adjectivos “pobre, formosa, doida, excessiva”, sendo que pobre só na fase final da vida. É o protótipo da cortesã: leviana e amora, sem preocupações culturais ou sociais; tem uma personalidade fútil mas fria, caprichosa, cruel e interesseira. É nela que radicam todas as desgraças da família Maia, mas não faz o mal por maldade, mas antes por paixão. É uma personagem-tipo.
Carlos da Maia é o protagonista, segundo filho de Pedro e Maria Monforte. Após o suicídio do pai vai viver com o avô para Santa Olávia, sendo educado à inglesa pelo preceptor, o inglês Brown. Sairá de Santa Olávia para tirar Medicina em Coimbra. Descrito como um belo jovem da Renascença com olhos negros e líquidos próprios dos Maias, alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, barba muito fina, castanho escura, rente na face, aguçada no queixo e com um bonito bigode arqueado aos cantos da boca, era admirado pelas mulheres, elegante na sua toilette e nos carros que guia. Durante o seu período de estudos experimenta um interlúdio amoroso com Hermengarda, que abandona por sentir compaixão do marido e do filho, e mais tarde com uma prostituta espanhola. Depois do curso acabado, viaja pela Europa, indo visitar os Lagos escoceses com Mme. Rughel, uma holandesa separada. Regressando a Lisboa traz planos grandiosos de pesquisa e curas médicas, que abandona ao sucumbir à inactividade, pois, em Portugal, um aristocrata da sua estirpe não é suposto ser médico, e, ainda porque por ser um belo jovem desencadeava a desconfiança dos maridos que não lhe queriam confiar as mulheres enfermas. Apesar do entusiasmo e das boas intenções fica sem qualquer ocupação e acaba por ser absorvido por uma vida social e amorosa que levará ao fracasso das suas capacidades e à perda das suas motivações. É um diletante que se interessa por imensas coisas, demonstrando um comportamento dispersivo. Carlos transforma-se numa vítima da hereditariedade (visível na sua beleza e no seu gosto exagerado pelo luxo, herdados da mãe e pela tendência para o sentimentalismo, herdada do pai) e do meio em que se insere, mesmo apesar da sua educação à inglesa e da sua cultura, que o tornam superior ao contexto sociocultural português, revelando-se um gentleman. Será absorvido pela inércia do país, assumirá o culto da imagem, numa atitude de dândi. A sua superioridade e distância em relação ao meio lisboeta é traduzida pela ironia e pela condescendência. O dandismo revela-se em Carlos num narcisismo que se alia ao gosto exagerado pelo luxo e também na auto-marginalização voluntária em relação à sociedade, motivada pelo cepticismo e pela consciência do absurdo e do vazio que governa o mundo daqueles que o rodeiam. A Condessa de Gouvarinho surge como o primeiro fio da teia que irá aprisionar Carlos, ao se entregar a ele em busca de uma aventura que apimentasse o seu casamento. Carlos entregar-se-á ao prazer sensual do qual se entedia. A sua verdadeira paixão nascerá em relação a Maria Eduarda, que compara a uma deusa e jamais esquecerá. Por ela dispõe-se a renunciar a preconceitos e a colocar o amor no primeiro plano. Ao saber da verdadeira identidade de Maria Eduarda consumará o incesto voluntariamente por não ser capaz de resistir à intensa atracção que Maria Eduarda exerce sobre ele. Acaba por assumir que falhou na vida, tal como Ega, pois a ociosidade dos portugueses acabaria por contagiá-lo, levando-o a viver para a satisfação do prazer dos sentidos e a renunciar ao trabalho e às ideias pragmáticas que o dominavam quando chegou a Lisboa, vindo do estrangeiro. Simboliza a incapacidade de regeneração do país a que se propusera a própria Geração de 70. Não teme o esforço físico, é corajoso e frontal, amigo do seu amigo, parece incapaz de fazer uma canalhice. No final da obra afirma-se partidário do “fatalismo muçulmano”, ou seja, “nada desejar e nada recear... não se abandonar a uma esperança, nem a um desapontamento.” Eça terá querido personificar em Carlos o ideal da sua juventude, a que fez a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino, e que acabou no grupo dos Vencidos da Vida, de que Carlos é um bom exemplo. É uma personagem modelada.
Maria Eduarda é apresentada como uma deusa (Juno), completa e talvez demasiado idealizada. Ignorando a sua verdadeira identidade, entra na sociedade lisboeta pela mão de Castro Gomes, com quem partilhava a sua vida, havia três anos. Dizendo-se viúva de Mac Green, sabia apenas que a sua mãe abandonara Lisboa, levando-a consigo para Viena, quando contava apenas um ano e meio de idade. Da sua união com Mac Green, que durara quatro anos, tivera uma filha, Rosa, a quem amava com desvelo e por quem sacrifica a sua felicidade aliando-se a Castro Gomes a fim de lhe dar estabilidade económica. Mónaco, Londres e Paris foram cidades onde viveu antes de vir para Lisboa, onde se dá o infortunado encontro com Carlos que consuma a desgraça predita por Vilaça, quando Afonso resolve habitar de novo o Ramalhete, ignorando as suas lendas e agouros. À sua perfeição física alia-se a faceta moral e social que tanto deslumbram Carlos. A sua dignidade, a sensatez, o equilíbrio e a santidade são características fundamentais da sua personagem, às quais se juntam uma forte consciência moral e social aliadas a uma ideologia progressista e pragmática, fazendo ressaltar a sua dualidade aristocrática e burguesa. Salienta-se ainda a sua faceta humanitária e a compaixão pelos socialmente desfavorecidos, motivando a comparação que Carlos entre ela e o avô. A súbita revelação da verdadeira identidade da sua deusa vai provocar em Carlos estupefacção e compaixão, posteriormente o incesto consciente, e depois deste a repugnância. A separação é a única solução para esta situação caótica a que se junta a morte de Afonso, consumando as predições de Vilaça. A sua apresentação cumpre os modelos realista e naturalista, é o exemplo acabado de que o indivíduo é um produto do meio, pelo que coincidem no seu carácter e no espaço físico que ela ocupa duas vertentes distintas da sua educação: a dimensão culta e moral, construída aquando da sua estadia e educação num convento, e a sua faceta demasiado vulgar, absorvida durante o convívio com sua mãe, proprietária de uma casa de jogo onde toma contacto com uma realidade sórdida que se manifesta na jóia de cocotte e no “Manual de Interpretação dos Sonhos”. Ela é o último elemento feminino da família Maia e simboliza, tal como as outras mulheres da família, a desgraça e a fatalidade, assim, em vez de significar fecundidade criadora, a mulher é na obra um elemento estéril. É a terceira figura feminina na panóplia de três gerações da família Maia apresentadas na obra. Simbolicamente o número três é o número da completude e implica a conjugação de três momentos temporais: o passado, o presente e o futuro, ou seja a mulher surge na obra como um factor de transformação do mundo masculino, conduzindo à esterilidade e à estagnação; o terceiro elemento feminino torna-se a revelação simbólica dos outros que foram nefastos à família. Eça não lhe estuda muito o carácter, mas o que transparece é bom: sem defeitos, a não ser os que a vida nela marcou. É de uma enorme dignidade, principalmente quando não quer gastar o dinheiro de Castro Gomes por estar ligada a Carlos. Adivinha-se bondosa e terna, culta e requintada no gosto. Talvez seja a figura feminina que mais na obra, pela dignidade que assume e a tragédia que a atinge. No final da obra, parte para Paris onde mais tarde de saca com Mr. de Trelain, casamento considerado por Carlos o de dois seres desiludidos. É uma personagem-tipo.
Ega, filho de uma viúva rica e beata de Celorico de Basto, escandalizava e chocava esse pequeno meio com o seu espírito sacrílego. Amigo inseparável de Carlos, que conhece em Coimbra, onde se licenciou em Direito, fala por ele, sofre por ele, aprecia em Carlos as qualidades a que ele lhe faltam; comparsa no drama de Carlos, seu confidente, sua consciência, seu companheiro nas angústias e nos prazeres. Alter-ego de Eça, que ao nível físico brinca com a sua magreza, com o seu monóculo e com o bigode arrebitado, e ao nível intelectual revela a sua dualidade romântica e regeneradora. Partidário do Naturalismo opõe-se ao poeta ultra-romântico, Alencar. Embora defensor dos valores realistas, revela-se um romântico, no pior sentido, incapaz de fazer fosse o que fosse. Irreverente, revolucionário, boémio, excêntrico, exagerado, caricatural, provocador, cínico, sarcástico, crítico, anarquista sem moral e sem Deus, satânico, positivista e romântico, um pobre diabo apaixonado, que interpretará o mensageiro funesto dos amores incestuosos de Carlos e Maria Eduarda, ao tornar-se depositário das missivas e dos papéis que confirmam os laços de sangue entre ambos. Assume-se como um dândi, mas também como um literato falhado, começa a escrever “Memórias de um Átomo”, história das grandes fases da Humanidade e do Universo, “O Lodaçal” para se vingar de Cohen, mas nunca os acaba, mostra ainda vontade de escrever “As Jornadas da Ásia”, não chegando sequer a iniciá-lo, bem como uma revista que revolucionasse o ambiente cultural português; o intelectual das grandes ideias, das revoluções facínoras, das grandes alterações sociais, porém nada faz, vivendo num amplo parasitismo, refugiando-se por detrás de Carlos. Cultiva a sua própria imagem, excêntrica e exuberante, o que se evidencia na decoração da Vila Balzac. Saliente-se ainda a sua faceta sensual. O seu discurso demolidor serve a Eça para atingir as instituições e os valores que pretendia denunciar. Permitiu a Eça escrever as passagens mais hilariantes da obra. No final da obra assume grande importância na intriga por ser o depositário da carta reveladora da identidade de Maria Eduarda. É uma personagem modelada pois tem densidade psicológica, evidenciada ao tecer considerações sobre a situação incestuosa de Carlos e Maria Eduarda. Fisicamente pouco se sabe, tem um nariz adunco.
Alencar é o poeta romântico à portuguesa que exerce grande influência na geração de Pedro, aconselhando a Maria Monforte o tipo de novelas a ler. É o autor de “Vozes d’Aurora”, “Elvira” e “Flor de Martírio”. Era frequentador assíduo das soirées de Arroios. Identificado com os valores do romantismo hiper-sentimental, tem uma paixão literária por Maria Monforte. É caricato e exagerado e denuncia uma feição sentimental e pessimista do ultra-romantismo. Tem uma atitude poética declamatória e teatral, cheio de tiques, os seus versos são caricatos, condizendo com a sua atitude melancólica. “Muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos; já todo calvo na frente, os anéis fofos de uma grenha muito seca caíam-lhe inspiradamente sobre a gola; e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgrube.”, tinha uma voz grossa e macilento. Levava uma vida boémia. Serve a Eça para figurar as discussões de escola entre naturalistas e românticos, numa visão caricatural da Questão Coimbrã. Não se lhe conhecem defeitos e tem um grande e generoso coração, é bondoso e sentimental, idealista e sincero. É o informador do destino de Maria Monforte. É uma personagem-tipo, representando os artista das letras e a sobrevivência dos valores ultra-românticos na geração de 70. A vitalidade desta personagem é atestada pela reacção de Bulhão Pato, que nela se sentiu retratado e contra-atacou violentamente Eça em vários textos.
Castro Gomes, um fidalgo brasileiro, é o elemento catalisador da catástrofe ao desvendar o passado de Maria Eduarda, de quem fora amante em Paris durante três anos. É o responsável pela entra da dela na sociedade lisboeta. Após a descoberta do romance de Maria Eduarda com Carlos abandona Portugal sem grande pesar.
Craft é filho de um clérigo de uma igreja inglesa, facto que o aproxima de Carlos e da sua forma de estar no mundo, pelo que entre eles nascerá uma amizade espontânea. De diminuta importância, de temperamento byroniano, dedica o seu tempo a viajar e a coleccionar obras de arte juntando-as na casa que possuía nos Olivais, passatempos deverás em conformidade com a sua fortuna herdada de um tio. É um gentleman que herdou da sua cultura britânica, a bravata a defesa de ideias, a rectidão de carácter e a correcção; é o arquétipo do que deve ser um homem, e Eça não esconde as suas simpatias por ele. É marcado pelo diletantismo e desocupação que, à semelhança de Carlos, o irão vitimar. Tem uma posição de nítida superioridade e desdém face aos demais. A última menção ao seu nome é para, implicitamente, conduzir o leitor à conclusão de que este amante do Belo e do xadrez acabará os seus dias em Richmond, sucumbindo ao álcool. Tal como Carlos e Ega é um boémio, mas ao contrário destes é uma personagem-tipo.
Cruges é uma personagem secundária que simboliza o músico idealista, que sucumbe à mediocridade cultural nacional. O seu objectivo é compor uma ópera que o imortalizasse, mas falta-lhe a motivação, devido ao meio em que se insere, e que pode ser comprovado pela sua afirmação “Se eu fizesse uma ópera, quem é que ma representava?”, demonstrando-se sem génio criativo, esmagado pelo meio obsoleto. É moralmente são e tímido. É uma personagem-tipo representando os artistas da música.
Guimarães é um antigo trabalhador do jornal Rappel, fundado por Victor Hugo e Rochefort, e tio de Dâmaso. Democrata e simpatizante do comunismo, ele é uma personagem-tipo. É o portador da desgraça da família Maia, tendo conhecido Maria Monforte em Lisboa, encontrando-a posteriormente em Paris, onde recebe a caixa que encerra o segredo da verdadeira identidade de Maria Eduarda, caixa essa que mais tarde entregará a Ega. É uma encarnação do Destino, assumindo o papel de destinador pela sua acção meramente casual, recusando o êxito a Carlos, a quem inviabiliza os seus amores com Maria Eduarda, ferindo também Afonso, que aliás morre na sequência da revelação por Guimarães proporcionada.
Vilaça (pai e filho) são os procuradores da família Maia. Apesar de empregados da casa dos Maias, foram sempre tratados com familiaridade. Vilaça é o arauto da fatalidade que ensombra a família e o Ramalhete. Após a morte do pai, Manuel Vilaça assume a função de procurador, com escritório na Rua da Prata, desejando ser vereador, ou talvez deputado. Embora de condição subalterna, este burguês diligente e empreendedor, mas calmo, torna-se o mensageiro da fatalidade ao revelar a Carlos a identidade de Maria Eduarda, função que lhe fora incumbida por Ega, que não tivera coragem. Ambos são de uma lealdade sincera à família Maia. É uma personagem-tipo representando o burguês típico e conservador, honesto e prudente.
Dâmaso Salcede é o personagem mais caracterizado por Eça, tornando-se um cabide de defeitos: defeitos de origem (filho de um agiota); presumido; cobarde; não tem dignidade (porta-se como uma rafeiro sabujo); mesquinho; enfatuado e gabarola; provinciano e tacanho, somente com uma preocupação na vida: o “chique a valer”. Fisicamente é baixote, gordo, frisado como um noivo de província, mas a quem não falta pretenciosismo. Aproxima-se de Carlos, que admira e inveja, por interesse e desejo de condição social. Tenta convencer-se e convencer os outros do seu fascínio irresistível face ao sexo oposto, não obstante as suas conquistas estarem confinadas a espanholas de reputação muito duvidosa. Possuidor de grande bazófia e sendo um enorme cobarde, difama pública e anonimamente Carlos, mas retracta-se logo em seguida. Nada tem de inteligente, de honrado ou de nobre. Consegue casar com uma filha dos Condes de Águeda que se apressa a traí-lo. Condensa toda a estupidez, futilidade e ausência de valores da sociedade. Decalca qualquer comportamento importado do estrangeiro, principalmente de França.
Eusèbiozinho, vizinho de Carlos, é inicialmente o negativo de Carlos no que toca à educação. Leva uma existência doentia, mergulhado nos alfarrábios, sem qualquer contacto com a natureza. Tornou-se “molengão e tristonho”, com as perninhas flácidas. Depois de viúvo procurava os bordéis para se distrair. Fidalgo de província sem vontade própria. É uma personagem-tipo representando a educação retrógrada portuguesa.
Tancredo é um napolitano que dizia ser sobrinho dos príncipes de Sória, participou numa conspiração contra os Bourbons e por isso teve que abandonar Itália, vindo para Portugal. É um homem fatal pela sua extraordinária beleza, ocasionando uma sedução irresistível. Além de fatal, era demoníaco, com o seu olhar taciturno e orgulhoso, a sua figura pálida que atrai para depois aniquilar, para provocar desassossego, desespero e morte (vejamos o caso de Pedro).
Conde de Gouvarinho é ministro e par do Reino, personagem-tipo que representa o político incompetente. Casou com a filha de um comerciante rico do Porto, aliado o seu título ao dinheiro dela, pelo que é um casamento de conveniência.
Condessa de Gouvarinho é amante de Carlos até este se enfastiar e resolver abandoná-la, sensual e provocante, é uma personagem-tipo simbolizando as mulheres adúlteras. É uma aristocrata que corporiza a decadência moral e a ausência de escala de valores da alta sociedade, é uma mulher fatal.
Steinbroken é o ministro da Finlândia, entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma autoridade no whist e um bom barítono. Parece resumir as suas funções diplomáticas a duas preocupações: a de exercer com zelo, formalidades e praxe o seu cargo e o de se remeter a uma neutralidade constante e prudente, comodamente conseguido à custa da repetição de frases-chave, despidas de conteúdo: o inevitável “c’est grave” ou “c’est excessivement grave”. Não deixa de constituir um juízo muito significativo da Finlândia sobre o universo político português, já que ao confiar no labor de tal embaixador, o país estrangeiro que ele representa revela um conhecimento razoável do carácter monótono e repetitivo da vida pública portuguesa. É uma personagem-tipo representante dos diplomatas.
Taveira é um empregado no Tribunal de Contas tipificando os funcionários públicos, pelo que é uma personagem-tipo. É a única personagem com funções definidas.
Neves é o director d’A Tarde, deputado e político. Personagem-tipo símbolo do jornalismo político e parcial.
Palma Cavalão é o director d’A Corneta do Diabo, personagem-tipo símbolo do jornalismo corrupto, devasso, insultuoso e sem fidedignidade. O seu acompanhante em sociedade é Eusèbiozinho, ambos consideram assaz importante conviver e saber lidar com prostitutas espanholas.
Jacob Cohen é um judeu banqueiro, director do Banco Nacional, casado com Raquel. Considera que Portugal caminha para a bancarrota, mas não hesita aproveitar a situação económica do país em proveito próprio. É uma personagem-tipo representando a alta finança.
Raquel Cohen é uma mulher adúltera, bela e refinada que não hesita a pôr em prática o seu poder de sedução. Amante de Ega, até o caso ser descoberto, precisamente no dia em que Cohen ia dar um baile de máscaras praticamente organizado por Ega.
Rufino é deputado por Monção, símbolo da oratória parlamentar, usando e abusando de uma retórica balofa e oca com uma mentalidade profundamente provinciana e retrógrada. É uma personagem-tipo.
Sousa Neto é representante da Administração Pública, é ignorante e nunca saiu de Portugal, personagem-tipo da burocracia, tacanhez intelectual e ineficácia da Administração. É amigo e próximo do Conde de Gouvarinho.